” Se o outro for bom para você. Se te der vontade de viver. Se o
cheiro do suor do outro também for bom. Se todos os cheiros do corpo do
outro forem bons. O pé, no fim do dia. A boca, de manhã cedo. Bons,
normais, comuns. Coisa de gente. Cheiros íntimos, secretos. Ninguém mais
saberia deles se não enfiasse o nariz lá dentro, a língua lá dentro,
bem dentro, no fundo das carnes, no meio dos cheiros. E se tudo isso que
você acha nojento for exatamente o que chamam de amor? Quando você
chega no mais íntimo, No tão íntimo, mas tão íntimo que de repente a
palavra nojo não tem mais sentido.[…] O que é que você queria? Rendas
brancas imaculadas? Será que amor não começa quando nojo, higiene ou
qualquer outra dessas palavrinhas, desculpe, você vai rir, qualquer uma
dessas palavrinhas burguesas e cristãs não tiver mais nenhum sentido? Se
tudo isso, se tocar no outro, se não só tolerar e aceitar a merda do
outro, mas não dar importância a ela ou até gostar, porque de repente
você até pode gostar, sem que isso seja necessariamente uma perversão,
se tudo isso for o que chamam de amor. Amor no sentido de intimidade, de
conhecimento muito, muito fundo. Da pobreza e também da nobreza do
corpo do outro. Do teu próprio corpo que é igual, talvez tragicamente
igual. O amor só acontece quando uma pessoa aceita que também é bicho.
Se amor for a coragem de ser bicho. Se amor for a coragem da própria
merda. E depois, um instante mais tarde, isso nem sequer será coragem
nenhuma, porque deixou de ter importância. O que vale é ter conhecido o
corpo de outra pessoa tão intimamente como você só conhece o seu próprio
corpo. Porque então você se ama também.”
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